A cultura do “dar conta de tudo”: como expectativas irreais estão adoecendo mulheres
- Spot Soluções

- 3 de fev.
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Sobrecarga emocional, dupla jornada e carga mental invisível afetam a saúde feminina
A ideia de que a mulher precisa “dar conta de tudo” trabalho, casa, filhos, família, aparência, vida social e equilíbrio emocional deixou de ser apenas um discurso cultural para se tornar um problema de saúde pública. Mesmo com avanços na participação feminina no mercado de trabalho, estudos seguem mostrando que a distribuição das responsabilidades dentro e fora de casa permanece profundamente desigual.
Pesquisas sobre trabalho não remunerado e carga mental indicam que mulheres acumulam responsabilidades invisíveis que não aparecem nas planilhas de horas, mas consomem energia emocional e cognitiva diariamente.
O que é carga mental e por que ela pesa tanto
A chamada carga mental (ou cognitive labor) refere-se ao trabalho contínuo de planejar, organizar, lembrar, antecipar necessidades e tomar decisões relacionadas à rotina da casa, da família e, muitas vezes, do trabalho.
Estudos internacionais apontam que, em muitos contextos, mulheres assumem cerca de 70% da carga mental doméstica, mesmo quando têm jornadas formais semelhantes às dos homens. Isso inclui:
lembrar de compromissos, prazos e datas importantes;
planejar alimentação, cuidados com filhos e familiares;
organizar rotinas, tarefas e imprevistos;
gerenciar demandas emocionais de outras pessoas.
Esse esforço constante está diretamente associado a níveis mais elevados de estresse, ansiedade, depressão e burnout.
Autocobrança e padrões geracionais
Além da sobrecarga prática, existe a autocobrança. Muitas mulheres crescem internalizando a ideia de que precisam ser fortes, disponíveis, eficientes e emocionalmente estáveis o tempo todo.
Esse padrão é frequentemente transmitido de forma geracional. Mães e avós que sustentaram famílias inteiras sem apoio acabam se tornando referência ainda que, muitas vezes, tenham vivido à custa do próprio adoecimento.
Como consequência, pedir ajuda, desacelerar ou dizer “não” costuma vir acompanhado de culpa, como se descanso fosse sinônimo de fracasso.
Reflexos no ambiente de trabalho
No contexto profissional, a cultura do “dar conta de tudo” se manifesta de diversas formas:
jornadas estendidas e dificuldade de desconectar;
medo de parecer “menos comprometida” ao impor limites;
aceitação constante de demandas extras;
conflito trabalho-família persistente.
A literatura sobre saúde ocupacional mostra que a combinação entre dupla jornada e carga mental invisível aumenta significativamente o risco de adoecimento emocional e prejudica relações pessoais e profissionais.
Exercício prático de autocuidado e reconexão
Como estratégia concreta para romper esse padrão, a psicoterapeuta e especialista Elaine Rios propõe um exercício simples, diário e acessível de autocuidado e ressignificação da própria imagem.
1. Encontro diário com o espelho
Reserve de 2 a 5 minutos por dia, em um momento sem interrupções.
Olhe nos seus olhos no espelho e respire profundamente, relaxando ombros, mandíbula e testa.
Em voz alta, diga frases como:
“Eu não preciso dar conta de tudo sozinha.”
“O que eu faço já é muito, e tem valor.”
“Eu sou importante, mesmo quando descanso.”
“Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.”
2. Nomear a carga mental
Identifique algo que você está carregando sozinha e diga em voz alta:
“Eu reconheço que estou carregando [ex.: toda a organização da casa] sozinha.”
Em seguida, complete:
“Eu mereço dividir essa responsabilidade.”
3. Pequeno compromisso concreto
Defina um gesto prático para as próximas 24 horas:
delegar uma tarefa;
adiar algo não urgente;
dizer “não” a uma demanda extra.
Repita o exercício diariamente por pelo menos uma semana, adaptando as frases à sua realidade.
Romper com a cultura do “dar conta de tudo” começa pelo reconhecimento de que essa cobrança não é individual, mas social e histórica. Olhar para si com mais gentileza, dar nome à carga mental e assumir pequenos compromissos diários de mudança enfraquece padrões de exaustão crônica.
Como reforça Elaine Rios, nenhuma mulher deveria sustentar sozinha a expectativa de ser forte o tempo todo. Compartilhar responsabilidades, pedir apoio e estabelecer limites não são sinais de fragilidade, mas de saúde emocional.
📌 Cuidar de si também é um ato de resistência.

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