Riscos psicossociais e NR-01 ampliam a responsabilidade das organizações sobre saúde mental
- Spot Soluções

- 9 de fev.
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Atualização da norma reforça a relação entre clima organizacional, organização do trabalho e práticas estruturadas de prevenção
A gestão dos riscos psicossociais ganhou protagonismo no debate sobre saúde e segurança do trabalho no Brasil com a atualização da NR-01, norma que estabelece as disposições gerais e o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A mudança sinaliza um avanço importante ao reconhecer que fatores relacionados à organização do trabalho e às relações interpessoais têm impacto direto sobre a saúde mental dos trabalhadores.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), riscos psicossociais estão associados a elementos como metas excessivas, jornadas prolongadas, assédio moral, conflitos recorrentes, falta de autonomia e ausência de suporte institucional. Esses fatores deixam de ser tratados como questões subjetivas ou individuais e passam a integrar o campo da responsabilidade organizacional.
Saúde mental e desempenho organizacional estão conectados
Os impactos dos riscos psicossociais vão além do sofrimento individual. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que transtornos relacionados ao estresse, ansiedade e depressão estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no mundo, com reflexos diretos em:
queda de produtividade;
aumento do absenteísmo;
rotatividade elevada;
crescimento de custos indiretos para empresas e sistemas públicos de saúde.
Nesse contexto, a saúde mental deixa de ser apenas um tema de bem-estar e passa a ser um fator estratégico de sustentabilidade organizacional.
NR-01: da reação à prevenção estruturada
Com a atualização da NR-01, a abordagem dos riscos psicossociais deixa de ser reativa e passa a integrar uma lógica preventiva e sistemática. A norma estabelece que os empregadores devem:
identificar os riscos presentes no ambiente de trabalho;
avaliar sua probabilidade e gravidade;
implementar medidas de controle e prevenção;
monitorar continuamente os resultados.
Isso inclui, de forma explícita, os fatores de natureza psicossocial, exigindo das organizações uma postura mais estruturada e responsável frente ao tema.
Escuta qualificada como instrumento técnico de prevenção
Dentro desse novo modelo, práticas formais de escuta qualificada ganham relevância como instrumentos de diagnóstico e prevenção. Ao permitir que sinais de sobrecarga, conflitos e sofrimento emocional sejam identificados precocemente, a escuta contribui para evitar o agravamento dos quadros e reduzir riscos organizacionais.
É importante destacar que escuta qualificada não se confunde com conversas informais ou ações pontuais de bem-estar. Trata-se de um processo estruturado, que envolve:
condução por profissionais capacitados;
critérios técnicos e metodológicos;
confidencialidade;
integração às políticas internas de saúde, gestão de pessoas e compliance.
Quando associada a indicadores de clima organizacional, rotinas de acompanhamento e planos de ação, a escuta fortalece a confiança, melhora as relações de trabalho e amplia a efetividade da prevenção.
Benefícios organizacionais das práticas preventivas
Especialistas apontam que organizações que adotam práticas sistemáticas de escuta e prevenção tendem a apresentar:
menor rotatividade de colaboradores;
maior engajamento das equipes;
ambientes emocionalmente mais seguros;
redução de conflitos e afastamentos;
maior aderência às exigências legais da NR-01.
Nesse sentido, a adequação à norma não deve ser vista apenas como cumprimento legal, mas como parte de uma estratégia mais ampla de sustentabilidade humana e organizacional.
A visão clínica: transformar norma em cuidado efetivo
A terapeuta psicanalista Elaine Rios destaca que a escuta qualificada é um dos principais instrumentos para transformar a exigência normativa em prática real de cuidado.
Segundo Elaine, integrar escuta estruturada, análise de clima organizacional e ações preventivas permite às organizações atender à NR-01 de forma consistente, reduzindo riscos psicossociais e promovendo ambientes de trabalho mais saudáveis. Para ela, a prevenção começa pela capacidade institucional de ouvir, compreender e agir de forma responsável sobre o que emerge no cotidiano do trabalho.
A atualização da NR-01 representa uma mudança de paradigma: a saúde mental passa a ser reconhecida como parte integrante da gestão de riscos ocupacionais. Organizações que estruturam práticas de escuta, monitoramento e prevenção não apenas reduzem riscos legais, mas constroem ambientes mais seguros, produtivos e sustentáveis.
Ouvir, compreender e agir deixou de ser um diferencial tornou-se uma responsabilidade organizacional.
📌 Investir em escuta qualificada é investir em prevenção, governança e saúde no trabalho.

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